sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Oi moço, dá licença. Tem um coração sobrando? Só tem o seu? Serve. Sabe o que é? É que eu estou sem. Fui dando umas poeirinhas dele pros outros, pra ter um bucadinho de mim em todo mundo, sabe? Mas eles não acharam muita graça não. Tá todo mundo de coração cheio, moço. Ninguém teve onde por o meu pedaço. Largaram por aí, entende? Mas isso não foi o pior não. Não?não, não foi. O pior mesmo foi quando eu tirei um pedaço, uma fatia grande mesmo, quase que tudo, e dei pra ele. Ele não deixou cair não, e olha que era pesado. Pôs pra dentro. Mas enfurnou ele lá num cantinho, enfileirado com o resto. Imagina, moço! Ver que meu coração era só mais um no peito dele! Um colecionador, um desses que nasceu desprovido e rouba dos outros. Mas eu não ligava não, moço, não ligava mesmo. Se ele deixasse eu ficar um pouquinho só mais perto do dele. Mas tinha tanto coração na frente! Quase que um rodízio. Coração não tem vez, não tem. Aí eu quis pegar de volta, e tu acredita que ele não deixou? Deixou não. Eu pedi, implorei mesmo, mas ele nem lembra qual deles é o meu. Não deixa eu procurar, também. Quer que eu fique perdidinha sem meu coração, acredita? Ô moço, tem dó de mim. Me dá seu coração? Pode dar inteiro que cabe aqui, cabe todinho. Não parte ele não que dói. Confia em mim, eu cuido dele. Talvez ele até aprenda a gostar de mim. Talvez até ame aqui dentro! Já pensou que beleza? Me dá ele, moço. Antes que te roubem. Teu coração é bonito, é puro. Eu guardo ele da maldade, guardo mesmo. Não deixo pisarem nele não. Canto pra ele. Não? Só até eu ter o meu de volta!
Ô moço, me dá teu coração?

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